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O caso do ônibus elevado chinês e suas lições para a gestão pública

A busca por inovação para solucionarmos problemas complexos na administração pública é cada vez maior. Um dos grandes problemas modernos é a mobilidade e o tráfego eficaz de pessoas, cada vez mais complicado em grandes cidades, demanda investimentos cada vez maiores e mais caros para sua solução e foi justamente essa temática que, em maio de 2016, ganhou uma nova proposta de solução e que repercutiu nas páginas dos jornais do mundo inteiro.

Durante a Intel High Tech Expo, realizada em Pequim, pesquisadores chineses apresentaram o Transit Elevated Bus – TEB, ou Ônibus de Trânsito Elevado em português, um sistema de ônibus que prometia trafegar pelo alto nas ruas, deixando embaixo de si um túnel ambulante pelo qual passariam os carros. A iniciativa, que desafia nossos conceitos atuais de transporte, tornou-se realidade logo na sequência, em agosto de 2016, quando um protótipo entrou em operação para a realização dos testes de viabilidade.

Desenvolvido para abrigar confortavelmente 300 passageiros, logo inúmeras dúvidas surgiram. Uma delas, uma limitação óbvia, era que somente carros com menos de 2 metros de altura poderiam trafegar por baixo do TEB, o que significa que a novidade iria ter problemas com caminhões ou automotores mais elevados. Outra dúvida logo pensada, estava relacionada à capacidade do veículo de lidar com vias repletas de curvas e elevações, assim como com suas medidas de segurança que iriam garantir que outros veículos não teriam problemas em passar por baixo da invenção.

Pois bem, quase um ano após às primeiras notícias, a polícia de Pequim, na China, prendeu 32 pessoas por arrecadarem ilegalmente fundos para o projeto do Ônibus de Trânsito Elevado. Aos investidores, haviam sido oferecidos lucros de 12% sobre o capital que colocassem no negócio. Ou seja, um golpe fora aplicado.

A apresentação deste caso fracassado, que à primeira vista soava como uma ideia inovadora, nos traz de volta à realidade. Nem sempre ideias mirabolantes e pretensamente inovadoras são aplicáveis, ou são apresentadas a nós, gestores públicos, com intenções genuínas de melhorar a prestação de serviços públicos. Ideias interessantes podem sim ser aplicadas nos municípios, mas somente após terem sua viabilidade comprovada.

Da mesma forma, deve-se ter cuidado redobrado com as inúmeras ideias inovadoras que são apresentadas aos gestores que irão causar uma revolução em seu trabalho. Sim, claro que existem inúmeros projetos, ideias e produtos, que podem ajudar a desenvolver e profissionalizar setores da administração pública. Mas não necessariamente, dado o que chamamos aqui de “fetichismo do empreendedorismo”. Avalie bem.


Laura Angélica é cientista social, mestre em administração pública pela Fundação João Pinheiro e doutoranda da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Líder MLG com experiência nas áreas de gestão, planejamento e segurança pública.

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