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Medir para mudar

Como regra geral, iniciativas para corrigir problemas ou promover melhorias são precedidas por diagnósticos. Médicos aferem pressão ou solicitam exames de sangue antes de prescreverem tratamentos. Peritos testam a resistência das pontes antes de determinar se precisam ser recuperadas. Administradores acompanham resultados de vendas para definir se precisam reduzir os preços de seus produtos. Da mesma forma, gestores públicos devem conhecer a realidade que desejam mudar antes de desenhar e implementar suas ações.

Mensurar o universo de influência de políticas públicas é, sem dúvida, tarefa complexa. Da mesma forma, é complexa a compreensão de causalidades e a determinação de impacto. No entanto, reconhecer a dificuldade da tarefa não exime o gestor público da necessidade de entender o problema e investigar como suas ações irão contribuir para mitigá-lo.
Um dos primeiros desafios é navegar no mar de informações disponíveis. A crescente demanda por transparência e facilidade em colher e disponibilizar dados nos trouxe ao mundo do big data, onde quase tudo é mensurado e compartilhado em tempo real. Selecionar o que é relevante e transformar os dados em informação, conhecimento e inteligência requer dedicação e sabedoria, sob pena de nos afogarmos na imensidão de números e não avançarmos na direção mais importante, que é a tomada de decisão bem informada.

Especificamente com relação a dados públicos, há excelentes plataformas online que aliam tecnologia e design na sua organização e disponibilização. Em grande parte baseadas em informações que já estão disponíveis ao público, a grande contribuição destes sites é tornar o seu acesso incrivelmente fácil, intuitivo, customizável e visual.

Na semana passada conheci o site datapedia.info através do Blog do Humberto Dantas no Estadão. Com a provocação de que só podemos melhorar aquilo que conseguirmos medir, o Datapedia se apresenta como “uma janela única com os dados públicos e oficiais de todos os municípios e distritos do país”. Para cada um dos municípios brasileiros, o site organiza dados públicos de diversas fontes oficiais por tema – IDH, mortalidade infantil, ocupação informal, coleta de lixo, finanças públicas, homicídios, qualidade da educação, entre tantos outros – como se fosse um “painel de controle” municipal. Cores identificam os temas que estão relacionados a áreas semelhantes (saúde, educação, segurança, renda, etc). Dados são apresentados em gráficos claros, muitos deles incluindo comparações com as estatísticas estaduais. A plataforma é um exemplo louvável de esforço para transformar dados públicos em informações de fato acessíveis e geradoras de conhecimento. Quem ainda não viu, vale a pena conferir.

Há também sites de visualização de dados públicos que focam em temas específicos, aprofundando as ferramentas de análise. A partir de dados da Secretaria de Comércio Exterior (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) e da Relação Anual de Informações Sociais (Ministério do Trabalho e Emprego), o DataViva descreve atividades econômicas, ocupação dos trabalhadores e parceiros comerciais do Brasil, seus estados e municípios, em incrível detalhe, para um período superior a 10 anos. Focado em educação, o QEdu relaciona dados da Prova Brasil, o Censo Escolar, Ideb e Enem (Ministério da Educação) para esclarecer fatores relacionados ao desenvolvimento da educação no país. A partir de dados da Secretaria do Tesouro Nacional (Ministério da Fazenda) o portal Meu Município organiza e disponibiliza de forma simples dados de receitas e despesas municipais, e apresenta indicadores gerenciais para a análise da situação financeira de cada cidade. Todos os sites mencionados contribuem para transformar informação em conhecimento.

Tornar dados públicos de fato acessíveis e compreensíveis por todos é uma grande contribuição para a transparência e para o accountability daqueles que decidem como serão usados os recursos públicos. Esforços neste sentido merecem os nossos aplausos. Mas, para além da transparência, plataformas que facilitam a visualização e análise dos dados públicos também democratizam o acesso ao diagnóstico que deve embasar a tomada de decisão do gestor público. Prefeitos e secretários de pequenas cidades, diretores de escolas nos quatro cantos do país, entre outros gestores que contam com poucos recursos humanos e de infraestrutura, podem se beneficiar enormemente. Vida longa às iniciativas de visualização de dados públicos!

E você, usa alguma plataforma de visualização de dados incrível? Compartilha com a gente nos comentários do Facebook.

Emília Paiva é economista, com mestrado em planejamento urbano na Universidade da Pensilvânia e doutorado em geografia na PUC de Minas Gerais. Já atuou como empreendedora pública e diretora vice-presidente no Escritório de Prioridades Estratégicas.

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